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Meu corpo e eu

  • Foto do escritor: Chairdance. br
    Chairdance. br
  • 11 de jul. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 12 de jul. de 2020


Eu nasci em 1980, isso significa que fui educada para ser uma mulher que se encaixa nos padrões impostos pela sociedade e também para me comportar de uma forma que agrade os outros, mesmo tendo pais com a cabeça mais aberta. Sou a primeira filha de um casal que tinha 40 anos quando nasci,e eles também tiveram uma educação castradora, por mais que lutassem contra esse caminho. Eu cresci tendo muito medo de me expor, de me posicionar, de mostrar meu corpo, de andar na rua, nunca conversava sobre sexo com minha família e eles não sabem nem da metade das coisas que aprontei nessa vida. Minha adolescência foi na década de 90, ou seja, nós meninas eramos muito violentadas, o tempo todo. Mão na bunda quando estávamos em festa, ônibus, na rua, os homens da família falavam sobre nosso corpo, "o peitinho ta crescendo", "ta na hora de depilar esse sovaco cabeludo", e nossas mães não estavam preparadas para se posicionar contra toda essa agressão. Hoje quando falo pra minha filha de 14 anos como era quando eu tinha a idade dela, fico pensando em quantas vezes me senti muito humilhada diante de situações e comentários de homens tanto da família, quanto de estranhos. "Naquela época não se falava de empoderamento feminino, sororidade..." falo pra ela. Naquele tempo o medo era muito maior que qualquer outro sentimento. Teve um dia, devia ter uns 13 anos, que estava caminhando na rua que morava, na cidade baixa em Porto Alegre, e um cara me parou e perguntou alguma coisa que eu não entendi, quando perguntei de volta: "O que?" ele disse para eu olhar para baixo, e pra minha surpresa, ele tava com o pau todo pra fora da calça. Eu só corri o mais rápido que pude, e não falei nada pra ninguém, só voltei a falar sobre isso depois de adulta. Então pensem, como seria a sexualidade na cabeça de uma mulher que cresceu nessa pressão, como sofri até conseguir me posicionar e pensar também em mim, como custei pra entender a importância de falar sobre o que eu gosto ou não na hora do sexo, como demorei pra me libertar de algumas imagens e estilo de vida impostos pra gente, ou como foi difícil sair dessa prisão que é a procura constante pela beleza, e também como levei tempo para resolver não sofrer mais com relacionamentos abusivos, em todos os âmbitos, inclusive na dança. E até hoje é muito difícil! É uma luta constante! Mas foi na chair dance que encontrei um lugar potente de empoderamento. No inicio, quando comecei a me apresentar e dar aula, não conseguia nem me encarar no espelho, apesar de ser artista e já ter contato com palcos e plateias há muitos anos. Sempre fui muito insegura! Mas aos poucos fui me soltando, me gostando cada dia mais e me enchendo de vigor. Passei a me reconhecer de outra maneira, num formato que cresci aprendendo ser errado, e por isso a demora em me sentir confortável naquele lugar: sensualizando com uma cadeira. Hoje, esse lugar da sensualidade, é muito importante pra mim, e também já está em outra fase. No momento que uma mulher se aproxima dos 40 anos, começa uma piração com o envelhecer. Envelhecer pra nós mulheres, dentro desse contexto em que vivemos ainda hoje, onde a beleza e juventude parecem ser os únicos valores que temos, é tão triste! E mais uma vez, vem a chair dance e me diz: "Tu é foda e tu é linda"! Depois de um ensaio, uma aula ou uma apresentação, minha energia muda. Sinto que tenho super poderes, gosto mais do que vejo no espelho e me sinto feliz comigo mesma! A dança traz isso com ela: esse poder de salvar nossa auto estima, mas a chair dance é onde eu consigo encontrar minha essência feminina, onde eu posso ser quem eu quiser e explorar as infinitas possibilidades que cabem em mim.

 
 
 

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